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As mulheres vencerão: mulheres, ansiedades e vitórias na pandemia

É mister indicar que a pandemia nos causa angústia e indisposição. Desta maneira, a Antropóloga Flávia Melo relata sua experiência com o confinamento e as lutas internas com as crises de pânico e ansiedade, tentando buscar uma nova perspectiva através de todo o caos com a força de outras Mulheres. Texto de Flávia Melo.





Despertei às 5 da manhã deste dia que não sei mais qual é: hoje, sempre hoje.


Depois de seis semanas de confinamento acordei com raras disposição e concentração para voltar à tese e escrever os capítulos finais de um trabalho para o qual busco o sentido de terminar em meio ao tsunami. Sim, essa é, para mim, a melhor imagem para descrever o que estamos vivendo. Uma onda arrasadora e gigantesca que agita as águas de rios e mares, arrasta a terra do solo, arranca raízes e desfaz nossas rotinas, nossos planos, nossas certezas.


Um caldo denso, gelado e amargo que mistura incertezas, lutos, adoecimentos, fascismos e superfaturamentos. Uma onda que, do lugar privilegiado onde estou, vejo aproximar-se – como na cena final de Melancholia de Lars von Trier – sem saber exatamente quando e como me alcançará. Mas sim, me alcançará.


Esta única certeza baseada na minha crença em estudos científicos, modelos matemáticos e desenhos epidemiológicos me garante certa resiliência. Com ela, tento viver um dia de cada vez – o hoje (não importa a que horas comece ou termine esse intervalo de tempo). As horas se sucedem sem dias ou noites, separadas apenas pelo intervalo em que consigo repousar. Afinal, suprimir o dia seguinte e o anterior me pareceu uma estratégia proveitosa para pessoas ansiosas, como eu, nesses tempos em que a pandemia se mistura a crises de ansiedade e ataques de pânico.


Nas últimas noites minhas crises de pânico voltaram. Diferente das crises antigas – das quais começava a esquecer-me – não me sentia acuada dentro de um elevador ou no vagão de um metrô subterrâneo. Demorei a entender o que me sufocava, inquiri meus traumas antigos buscando neles as razões de minha falta de ar e me culpei por sentir-me fraca novamente.


Uma mulher, psiquiatra, foi a primeira a me ajudar a entender o medo que senti. Deslocou-me do meu medo, dos meus traumas (que ainda estão aqui, latentes) e me ajudou a redescobrir uma tal humanidade soterrada: o medo que me afligia não era apenas meu, mas compartilhado com muitas, o medo hoje é nosso. Que estranha maneira de encontrar conforto no medo compartilhado. Que estranho modo de não se sentir só no confinamento.


Eram cinco horas quando despertei. O céu de Manaus estava escuro, os poucos carros transitando na avenida e uma chuva fininha não ocultavam o som dos periquitos e bem-te-vis que insistem em cantar toda aurora. Tentei prosseguir na leitura adiada do livro de Milton Hatoum, A noite da espera. Mas queria escrever. Queria voltar à tese. E escrevi.


O alarme surpreendeu-me às 6h30min e precisei desativá-lo. Busquei o celular, esse oráculo de fakenews e difusor de estresse. Há dias tento, sem sucesso, evitá-lo. Que contraditório esse objeto que tanto mal transmite, mas que nos permite ver e estar com quem amamos. Que desesperador seria perdê-lo neste momento.


Encontrei-o abandonado na mesa de cabeceira, escondido embaixo do livro de Hatoum, ao lado de um copo d’agua, um vaso de espada-de-são-jorge e uma cartela de ansiolítico. Desativei o alarme, ativei o wi-fi e evitei ler as centenas de mensagens que chegaram no whatsapp. A prévia de uma delas me chamou a atenção: As mulheres irão vencer.


As notícias não eram boas. Uma companheira – assim nos chamamos desde que nos conhecemos no final dos anos 1990 – comunicava ao nosso grupo de mulheres que sentia “falta de ar, dor na cabeça e febre”. Dizia-nos que o pulmão estava comprometido e o resultado dos testes era positivo: “Não tenho ideia de como chegou até mim, mas chegou”. Mais uma vez minhas certezas científicas se ratificaram: a companheira, uma mulher negra, pobre, diabética e da periferia de Manaus era uma das primeiras pessoas próximas a mim a ter a confirmação de contágio pelo Coronavírus.


E foi esta a segunda mulher a me salvar do medo.


“Quero primeiro dizer que as mulheres irão vencer”. Assim começava sua mensagem.


E foi este excerto que me arrebatou e arrefeceu a certeza do tsunami que está cada vez mais próximo.


Sua frase ressoa em meu corpo que ainda sente os efeitos do medo. O desejo de escrever permanece. Os tremores involuntários, a fadiga nos braços, o peso no peito e a falta de ar dividem espaço com uma outra certeza. Esta certeza não me tira os pés do chão do presente duro e duradouro. Mas restitui nosso passado e futuro de resistência.


Por sua mensagem fui interpelada e resgatada. Presenteada com uma lição de esperança, resiliência e resistência indispensável para viver nesse fim de mundo: Vencemos no passado e no presente. E venceremos no futuro.



Sim, companheira, as mulheres vencerão!

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