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Eu tenho esperança

São Gabriel da Cachoeira, um pequeno município no interior de Amazonas, é objeto de estudo de Dulce Meire Mendes Morais. A partir de sua convivência, a estudante relata as emblemáticas dificuldades enfrentadas pelo povo da pequena cidade. Desde que o vírus chegou ao país, medidas vêm sendo tomadas a fim de conscientizar a população, cujas especificidades são bem distintas. Texto de Dulce Meire Mendes Morais.

A imagem faz parte da cartilha "Corona vírus (Covid-19) Tome cuidado, parente!", produzida pelo Instituto Socioambiental. O desenho foi realizado por @o.ribs. Produzida pelo Instituto Socioambiental e parceiros.



O Lady Luiza (barco) saiu as três da manhã de Manaus, mas foi pego no caminho e teve que retornar. Essa foi uma das primeiras informações que tive numa manhã em São Gabriel da Cachoeira, após o decreto municipal que fechava todos os portos da cidade, evitando desta forma, a entrada e saída de pessoas.


Medidas como essa foram tomadas na cidade devido ao covid-19 que vem deixando mortos no mundo todo. São Gabriel da Cachoeira é um município localizado na região da cabeça do cachorro no noroeste amazônico e faz divisa com a Colômbia e Venezuela. É uma cidade que apresenta preocupações especiais em período de covid-19, por causa de sua população que apresenta características específicas. Mais de 80% da população da cidade é formada por pessoas indígenas de diversas etnias, entre elas: piratapuya, tukano, tuyuka, baniwa, baré, dâw. Desta forma, é um município que apresenta também grande diversidade linguística (português, tukano, baniwa, nheengatu, dâw) .


Na cidade, estão sendo realizados diversos encontros para discutirem sobre o covid-19. Fui convidada a participar de uma reunião com os profissionais da Secretaria Municipal de Saúde, em que foi apresentado o plano de contingência municipal produzido pela vigilância epidemiológica da cidade junto com outros profissionais da saúde que fizeram a reunião para compreendermos os sintomas da doença e as práticas que devem ser realizadas neste período de alerta. Também foi feito um apelo para a Secretaria Municipal de saúde em relação a falta de insumos e máquinas de esterilização de materiais, pois não havia como enfrentar essa doença sem materiais básicos de trabalho.


Mais recentemente, teve uma reunião com os profissionais de saúde do Distrito Sanitário Especial Indígena Rio Negro (DSEI-RN), que me autoconvidei a participar. Foi um treinamento/aula muito didático e interessante para entender a doença e principalmente, saber como trabalhar as formas de prevenção e cuidados com as pessoas das comunidades indígenas. Atentar ás especificidades de cada comunidade era algo que realmente estava sendo considerado. A preocupação com o compartilhamento de utensílios, a não utilização de sabão por algumas etnias, o isolamento de uma única pessoa dentro da comunidade, o alto número de suicídios foram pensadas e discutidas em conjunto nesta reunião. Eram muitas questões delicadas, que envolveria muita sensibilidade dos profissionais de saúde para trabalharem e apresentar formas de cuidado para a população. Como se não fosse suficiente os novos paradigmas que o vírus trouxe, surge também uma questão que posso dizer ser mais antiga. Como os profissionais de saúde bucal estão afastados de seus postos devido ao alto risco de contaminação, eles irão colaborar com as equipes de saúde nas comunidades, levando informações de como se higienizar. No entanto, como foi observado pelos profissionais ali presentes, o profissional de saúde bucal sempre foi muito requisitado pelas pessoas das comunidades e quando eles chegam até elas é para ensinar a lavar as mãos.


Questões emblemáticas têm surgido desde que este vírus chegou ao Brasil. Pensar em formas de lidar com ele está sendo um desafio, não apenas para os profissionais da saúde mas também para organizações da sociedade civil como o Instituto socioambiental (ISA). O ISA tem se engajado com diversos profissionais das mais variadas áreas para tentar contribuir de forma direta com a conscientização e prevenção das populações indígenas do Rio Negro. Então, fui convidada a participar da construção de uma cartilha que pudesse ser simples, objetiva e que fosse adaptada a população do Rio Negro. Esta cartilha apresenta informações sobre o covid-19, formas de prevenção, o que fazer caso tenha alguém com os sintomas ou portadores do vírus em casa, além de informações sobre como agir caso a pessoa esteja circulando da cidade para a comunidade e vice versa. A cartilha conta com imagens que ajudam na compreensão das orientações e também, foi traduzida para as línguas cooficiais do município (tukano, nheengatu, baniwa) e também em dâw. Este material está sendo divulgado nas redes sociais do ISA e da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), além de estar sendo compartilhado no Whatsapp. Também será utilizado pela Secretaria Municipal de Saúde, em que a via impressa do material será levada para as comunidades pelos profissionais de saúde que irão atuar nestes espaços, trabalhando a prevenção do covid-19.


Até o momento não há casos confirmados no município, mesmo assim, o trabalho é enorme. Como disse uma amiga piratapuya, a qual também é dona da frase que intitula este texto,“ontem tava lá na China, hoje já tá aqui. Será que vai demorar pra passar isso Dulce?”. Esperamos que sim.

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2020. COVID19.

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