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Quando nascer e morrer se encontram

Atualizado: Abr 8

Com a nova pandemia e, consequentemente, o isolamento, o contato físico tornou-se distante. Os encontros e despedidas sem abraços não nos calham. Seguindo a sugestão de manter o mínimo contato possível, neste rigoroso momento, é notória a ausência da presença - onde até mesmo enterros são feitos despidos de afetos, fazendo-o difícil de se assimilar. Texto de Natalia Farias.



“A gente nasce e morre só. E talvez por isso mesmo é que se precisa tanto viver acompanhado.” Essa frase de Rachel de Queiroz, sintetiza muito bem o que significa viver e sobreviver a uma pandemia.


Ruas esvaziadas se contrapõem a hospitais lotados, videochamadas tentam matar -sem sucesso- a saudade de um abraço apertado, e a vida e a morte se dão sem companhia, sem plateia, seguem a ordem do isolamento.


Ritos de passagem são comuns a diversas sociedades humanas e integram todo um conjunto de relações. Eles consistem em eventos sociais que visam marcar de forma evidente mudanças na vida dos indivíduos e da comunidade e, a partir deles, novos papéis sociais podem se performar.


Visando reduzir as possibilidades de transmissão e infecção de coronavírus, hospitais têm proibido a presença de doulas, fotógrafas, visitas e em alguns casos até mesmo de acompanhantes em partos. Ter ao menos um acompanhante é um direito garantido à gestante por lei, mas negligenciado por alguns hospitais em função da pandemia que se dissemina pelo país e, pelo atual maior risco de comorbidades que gestantes e puérperas apresentam frente ao vírus.


No Brasil, a lei do acompanhante (Lei Federal nº 11.108) está vigente desde 2005 embora ainda hoje, mesmo antes da pandemia, não fosse respeitada em todo território nacional. Além de oferecer à mulher um apoio emocional e ajuda física durante o parto, estar com um acompanhante significa também dividir o cuidado com o recém nascido e consigo mesma no período de internação. No parto e no puerpério imediato a mulher pode ficar mais frágil emocionalmente devido a queda brusca de hormônios após o nascimento do bebê, desta forma, ter ao seu lado alguém que ela confie e que tenha escolhido como acompanhante significa não somente um respeito à lei, mas também uma forma de responder às suas necessidades em saúde.


Além do nascimento, outro rito de passagem, o ato de velar os mortos também têm sofrido os impactos da pandemia. Nesse outro extremo da vida, um abandono compulsório se apresenta: apenas 10 minutos de velório e com o caixão lacrado são oferecidos para que amigos e familiares se despeçam de seu ente querido. Esse efêmero adeus, só é possível se o familiar não apresenta sintomas de Covid-19, nesses casos segue-se a imperativa do isolamento.


Evitar o contato físico, aglomerações e prevenir a contaminação e disseminação do coronavírus entre sintomáticos, assintomáticos, hígidos e falecidos, tem sido o direcionamento em velórios independente da causa de morte.

Além da morte rápida, famílias ainda têm que conviver com a dura realidade de não poder elaborar a dor da perda, de não terem tempo sequer de senti-la e já serem obrigados a enterrar seus mortos sem se despedir. A solidão é sentida tanto por quem vai quanto por quem fica. Embora seja uma alternativa para o bem da saúde pública, pular este evento social pode tornar o impacto das perdas ainda mais difícil e exigir apoio psicoterapêutico aos familiares.


Nas duas situações a falta de companhia, as trocas de palavras de aconchego e acalanto, a ausência do abraço de despedida ou de parabéns, a falta da troca de olhares tristes, alegres e de gratidão que se fundem em lágrimas de alegria ou de despedida fazem toda a diferença.

É nesse momento, centenário, pandêmico e assustador, que avizinhou o calor humano do carnaval, que é possível perceber a falta do outro em carne e osso, da pulsação, do toque, do abraço.

É a ausência da presença.

É a voz da primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras ressoando ensurdecedoramente em nossos ouvidos.

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2020. COVID19.

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