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Vivi pra ver: agradecimentos à pandemia do Coronavírus

Em "Vivi pra ver", Diego faz alusão à uma famosa sentença que sempre ouviu em sua geração, de que jamais veríamos o mesmo mundo que a maioria dos nossos avós. Com o COVID-19, a expressão veio a calhar: vivemos para ver as pessoas demandarem mais saúde pública, além das controversas questões de políticos neoliberais. Texto de Diego Amoedo Martínez.



Vivi pra ver foi uma expressão que me veio à cabeça esta semana, sentado no sofá e sem sair do meu estado de assombro e perplexidade em que me encontro e nos encontramos no mundo. Essa pandemia que nos assola enquanto terra e nos desafia enquanto espécie é um ótimo motivo de reflexão.

Achei interessante a frase quando a comentava com a minha companheira, eu vivi pra ver, porque essa frase carrega uma crítica justa recebida pela minha geração – agora como poderíamos chamar, eightyers, quizáis? – de que jamais veríamos o mesmo mundo que a maioria dos nossos avós. De fato, este não é o mesmo mundo que o deles. Recapitulando na minha história de família, a guerra civil, o regime fascista, os anos da fome e a emigração massiva dos filhos.

Essa é uma grande diferença, que sempre nos lembravam os nossos pais. Nós, a minha geração, tínhamos nascido, graças aos seus esforços homéricos, no trabalho da terra, na emigração ou aonde for, para poder ter outra vida. Eu que sou filho e neto de emigrantes e de camponesas, vivi na Suíça por nove anos. Desde pequeno sempre tive o que meus pais sequer sabiam que existia com a minha idade. Por isso fomos também educados para nunca ver. Eu não tinha nascido para ver o que eles tinham visto, nem sofrido.

Nascemos, pois, para fazer bonito, diferente.

Tudo isso claro, até as reformas da LOU do governo de Aznar e seus projetos de privatização comandados por Rodrigo Rato, não esqueçamos. Depois já formados, veio a crise de 2008 que a todxs recolocou. E de aí até o momento, começando por Esperança Aguirre e seguida por nossos Fraga e Feixón, se desenhou e implementou um vertiginoso plano neoliberal e de privatização da saúde.

Voltamos ao meu sofá, na TV, o Ministro de Saúde do Brasil, médico, deputado federal pelo DEM, de nome Mandetta. Antes, um inciso, quem hoje aparece como figura responsável e respeitada à frente da crise é um pecuarista que participou num conflito entre latifundiários e indígenas que acabou com um indígena morto. É um político de corte conservador, neoliberal, e em uma de suas coletivas à imprensa, se questionou:

Como é que pode um país como a Índia ser o laboratório subministrador de nossos remédios? Como é que pode a China concentrar a produção de máscaras de uso sanitário do mundo?

Gostaria e muito de perguntar ao Ministro, como é que pode isso acontecer? E gostaria também que ele tivesse que responder essa pergunta em um ambiente não pandêmico. Como membro da Frente Parlamentária Agropecuária que é, gostaria que nos explicasse, por que precisamos continuar sacrificando a Amazônia e seus habitantes? Por que o avanço descontrolado do desmatamento e da grilagem? Acaso não é para benefício de uns poucos?

Afortunadamente, eu vivi pra ver pessoas demandarem mais saúde pública, eu vivi para ver uma renda mínima ser discutida e um neoliberal se questionar acerca da concentração da produção.


Infelizmente, a COVID-19 me permitiu a viver pra ver!

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2020. COVID19.

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